O cheiro veio de longe, não, veio de perto.
A sacola abriu e ele saiu, assim, livre, como quem não pede licença, como quem nem sabe que faz ali.No jornal ele se fez eterno, ou melhor, durável, com a data de validade apagada na embalagem. Nas notícias velhas, enrugadas, amassadas e sujas ele transborda a sua juventude.
Eu, olfato aguçado, com o olhar para aquele ponto sempre alcançado no final do vagão quando os corpos, mesmo finos e leves, atrapalham o quadro que pinto. Encontro o cheiro dentro da sacola laranja, chamando minha atenção pelo barulho que o jornal fez ao ser retirado dela.
O caderno é de esportes, o que me sugere certa tranquilidade quando supri minha curiosidade ao movimentar a cabeça para o lado e pegando emprestadas as letras daquela notícia. Tranquilidade pois tudo no esporte muda, amanhã a notícia é outra,e elas correm como quem busca o primeiro lugar, os jornalistas com a mania do olhar sempre externo fazem os mesmos discursos e os jogadores,na maioria das vezes, fracassados e um pouco fora do peso,...bom, não precisamos nem comentar.
Sem encarar o personagem principal me dou conta das suas unhas,movimento a cabeça e mais uma vez encontro o cheiro.Vem dele, vem da sacola, vem das informações velhas que comprovei ao ver a data na lateral superior esquerda, vem da bagagem que ele carrega todos os dias, vem do ponto fixo no final do vagão, vem de mim.
Sexta-feira, Outubro 03, 2008
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