Quarta-feira, Setembro 26, 2007

Janela de lá.*

E abrir o sentido
E fechar no barulho
E gritar escondido.

Menininha.*

A gente sente falta das imagens do passado
Daquilo que a gente não viu
Daquilo que a gente não tem
A gente sente falta e é de ninguém
A gente sente falta e morre
E não sabe que viveu.

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Sobre cenas e idéias.*

A mesa era grande e todos sentados nos devidos lugares.Ela estava na ponta como quem comandava todo o ritual.Ela sempre gostou do poder e de ser vista.As senhoras sentaram rápido,com olhos curiosos e faminto.A mesa estava posta e a comida era farta.Os pratos foram servidos e a senhora,aquela mais gorda e com o vestido mais florido iniciou a degustação,com cara de prazer infinito e ouvidos tampados para a conversa da senhora pequenina que sentava ao seu lado.
Muita conversa e nada que chegasse até ela,nada que alguma palavra fizesse ela recusar a próxima garfada para a boca estar livre e iniciar algum diálogo.Não.Preferiu entupir seu corpo de corpos mortos,como aquele frango,que parecia delicioso,bem no final da mesa.Pronto,ela teria que falar,teria que pedir para que alguém,com alguma gentileza,lhe servisse o pedaço do frango.Pronto,ela não consegue e a vontade começa a incomodar.As risadas altas e a alça do sutiã da senhora gorda e faminta é o que existe de mais interessante no jantar.Ela deixa sua blusa cair no ombro como que sem vaidade,ou talvez,com a vaidade explorada,para que assim,quem sabe,sua parte do corpo ainda viva sobressaia na cena que encara sobre a mesa retangular e comprida.A vontade ainda incomoda,e os ouvidos estão cada vez mais abertos.
A senhora pequenina solta um sorriso e ela retribui.Lhe oferece um pouco de água,com gestos,e assim se entende.A blusa cai mais um pouco e lembra de como seus ombros são bonitos,que um dia foram elogiados,por quem mesmo?Bom,isso não importa,quem quer que seja,já passou.
A sobremesa chegou e ela recusa.Ela levanta e arruma a blusa.Se despede e fecha a porta.Agradáveis aquelas senhoras,pensou,buscando algum prazer,mínimo que seja,um engano,para que a verdade não seja o último pensamento da noite.Caminha e tenta de alguma forma ser gentil,com alguém pela rua,alguém para dar um sorriso e falar bobagens.Pensa que seria mais fácil marcar um novo jantar e retribuir toda a comida oferecida por aquelas senhoras.Não,ela acha melhor não.

Notícias de lugar nenhum.*

Pode gritar, pode falar, pode sentir, pode me confundir.Pode não querer, pode não saber, pode não gostar.Pode amar, pode comer, pode deixar, pode não ligar. Pode buscar, pode surgir, pode desaparecer.Pode.Pode,mas eu só sei o final.Só não me peça pra ficar.

Quinta-feira, Setembro 06, 2007

Com cara de quem já buscava.*

Sempre esqueço onde coloco,sempre.Mas tudo bem,sempre tem alguém que tem.
-Oi,me empresta seu isqueiro?
-Sim,claro
-Obrigada
-Ai,espera um pouquinho que eu não estou achando,nunca acerto o bolso
-É,normal,isto acabou de acontecer comigo
Ele olha para baixo, ela percebe um sorriso bem tímido surgir,um sorriso para o chão.Ela fica sem fala enquanto ele observa todos seus movimentos.
-Você é nova aqui?
-Sou,nova e já atrasada
-Cidade grande..
-É,cidade grande...
-Bom,preciso entrar.A gente se vê na saída?
-Sim,claro.Te dou meu telefone,se sair antes me liga,pode ser?
-Tá.Espera,deixa eu pegar meu celular.Ai,não encontro.Vou pegar uma caneta.Ai,me empresta uma sua?Isto sempre acontece comigo,sempre.Sempre esqueço onde coloco
-Toma,achei a minha.

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

É sobre o vento.*

Eu falo baixinho,com a voz rouca,palavras que entrarão delicadamente pela sua pele,com cheiro,com eco,com suor.Eu busco a melhor posição para te admirar,o melhor ângulo para registrar o suspiro.
Eu falo baixinho,assim,com a voz rouca,palavras que caminham junto à mim e que me trazem para perto.
Eu continuo falando baixinho,assim,com a voz rouca,palavras que encontram nas suas aquela saída.Enquanto as sombras insistirem,eu continuarei falando baixinho,delicadamente,com a voz rouca.
Eu beijo você.Você me beija.