Terça-feira, Junho 26, 2007

Branco.*

nunca respirei tão profundamente.

Domingo, Junho 24, 2007

Curva.*

eu não me conhecia em você
você acredita em tudo que eu falo?
eu te conheço
eu não me conheço

Um dia assim,sem querer.*

Ele disse que gostava de ler.E que,de tanto gostar virou professor,e sente falta desta vida.
Acho que a mesa daquele bar trouxe lembranças.Na verdade ela nem o conhecia, mas senti um olhar nostálgico na conversa dos dois.
Ela,apaixonada pela vida,apaixonada pelo novo tudo de novo,e ele,talvez,se apaixonando,pela vida que teve e aquela que sonha em ter.
Foi mais ou menos assim, ela sentou sem compromisso na cadeira.
De repente ela não quis mais sair de lá.Estranho,ela pensou.

Ele pegou na mão dela, pela primeira vez.Ela sentiu certa desconfiança, afinal,não era da sua personalidade estender a mão assim,tão rápido,para pessoas novas.Ficou ali, encostada na parede,observando,sua conversa,seu tom de voz ao cantar e até o jeito de andar.Estranho,ela pensou,de novo.
A mão dele finalmente encosta-se à dela e a dela encosta-se à dele.
Sim,agora sim porque eu deixei,ela pensou.Afinal,ela sempre acha que pode controlar situações e que tudo depende dela.
Os textos começam a conversar,as palavras perdidas lá no fundo da mente reaparecem com uma força imensurável,mas ela diria estranha.
Naquele dia ele olhou-a como não havia feito antes.Ou talvez ela nunca tinha percebido.Ali ela cresceu.Só foram necessários alguns segundos para ela concluir que não,ela não poderia controlar todas as situações.
Naquele dia as palavras corriam soltas,sem a preocupação de ponto,vírgula,exclamação e principalmente interrogação.Lembrou da naturalidade do primeiro encontro, e achou aquilo estranho,de novo.

A mão dela sente-se à vontade.Ela gosta das mãos, ela gosta de perceber todas as texturas da pele, de perceber onde está frio e calor, a mudança da respiração, quando esta domina todo o corpo e faz com que as mãos dancem nele, é nela que a gente tem que acreditar, ela diz.

A mão dela finalmente encosta-se à dele.

Ele a encosta no peito e sussurra em seu ouvido:
-Você também ta se segurando muito?
-...
-Eu tô
-...
-Me dá sua mão, ele pede-Ela não está mais aqui, ela diz.e fecha os olhos e dorme.

Sexta-feira, Junho 22, 2007

Encontro.*

"o importante não é saber o quanto temos que lutar,mas está em descobrir por quanto tempo ainda,temos que resistir"
dezembro/76.
[dedicatória feita pelo meu pai,na capa do disco meus caros amigos - chico buarque,para minha mãe]

Quinta-feira, Junho 21, 2007

Quem sabe em você.*

não sabemos o nosso tamanho
nunca saberemos
nem nosso peso,nem nossa idade

não saberemos pra que viemos
nem para que partimos

não saberemos o motivo do riso
nem da vontade de calar

não saberemos o motivo das vontades
nem para que aquilo serve

não saberemos da gente
nem se olharmos no espelho

ficaremos assim.

Terça-feira, Junho 19, 2007

O meu tamanho.*


eu gostava quando tudo era novidade e a gente não se espantava.quando a gente achava que a gente tinha que aceitar tudo e calar a fala.quando a gente não tinha opinião e tudo era como todo mundo queria.eu gostava.

eu gostava quando a gente dançava a mesma música,com os mesmos passos e prendia o cabelo da mesma forma.quando a gente usava as mesmas gírias e nos apaixonávamos pelo mesmo menino.


eu gostava quando a gente brigava por motivos fúteis e no dia seguinte a gente nem lembrava do que havia acontecido.eu gostava quando a gente descobria uma roupa nova e desfilava com ela na sexta à noite.eu gostava quando a gente começou a achar a cidade pequena e grande ao mesmo tempo.

eu gostava quando a gente ficava confusa e o nosso biquini já não era mais o mesmo.quando a gente tinha ciúmes dos novos personagens que surgiam.eu gostava quando a gente se encontrava lá na minha casa,sim,na sexta à noite,e meu banheiro ficava uma bagunça.

eu gostava quando a gente sentia saudade uma da outra durante a semana,afinal já sabíamos o que queríamos e a vida começava a mudar.eu gostava porque a gente nem ligava pra isso e sempre dava um jeitinho de se encontrar.

eu gostava quando eu tinha certeza,ou quando achava que ela existia.eu gostava de pensar que não sabia o que eu seria.

eu queria tudo isso dentro agora.

mas uma parte ficou ali,outra acolá.quase sempre se juntam,umas cresceram,outras,de tão pequenas,desapareceram.prefiro acreditar que nem marcas deixaram.no lugar destas restaram-me buracos.buracos tão profundos que ecoam meu grito que não sai da garganta.com uma infinita profundidade,querendo ser preenchido,aguardando,com a ansiedade de sempre,um próximo texto,para então eu dizer o quanto eu gostava.

prefiro acreditar que acredito.de tanto gostar eu acredito e me afogo.o grito não saiu,a voz ainda não foi capaz de suportá-lo.

Segunda-feira, Junho 18, 2007

Compasso.*

não sei o que ou quem me deixou assim
me perguntam e não sei
hoje eu quero uma pausa
escrevo e minhas letras caem.

Sábado, Junho 16, 2007

Declaração.*


família reunida.há mais de 15 anos.amigos de sempre que me mostram os caminhos seguros,não necessariamente os corretos,mas seguros.as avenidas que andei a pé,os edifícios que são ponto de referência.
a gente senta na mesa e papeia.a gente comemora um aniversário e percebemos que o tempo passou,e passa.
a amiga que me mostra diferentes idéias e que se mostra segura,que quer vencer seus medos,que continua com as mesmas gírias,o mesmo volume da voz,mas que me olha diferente.ela cresceu.eu também.
o ex-namorado que apresenta a nova namorada tímida,é,a primeira vez de qualquer novo membro não é das mais fáceis,sempre foi assim,mesmo aceitando-os,a gente olha uma para outra e se pergunta quem é.
a mãe da amiga que se sente feliz ao me ver,me diz que não mudei nada,desde pequena tenho o mesmo rostinho(foi assim que ela disse,eu juro).
na flutuação que me encontro agora,no meus pés leves e no meu peito aberto.sou acolhida.sou reconhecida.falam a língua fácil de ser entendida.alívio.
a tribo.minhas críticas quanto a sua formação e proposta se esvaem.quero agora.quem fala minha língua,quem sabe como acordo,quem reconhece meus passos e sabe da minha história.
quero o abraço que senti.naquele momento,não tinha nada que eu mais queria.
conforto.nem me importo com ele.quero vivê-lo.conhecedores dos nossos mundos,podemos dar risada sem antes soltar uma palavra.
pisei pela primeira vez em chão firme.duro.aquele que construí junto à mim.
volto.voltarei sempre.irei sempre.
no meu pouso ou no meu vôo.
gosto deste meu lugar que é lugar concreto.neste que eu possa mensurar,sem me perder.me encontrar sem me buscar.nada mais.
sou tantas que sou daqui também.me fecho com minhas falas sólidas e convictas.

Sexta-feira, Junho 15, 2007

Segredo.*

me dá sua mão, vai.

sem medo de cruzar a rua,confia em mim.

me dá sua mão quando ninguém estiver olhando,quando o chão parecer frio e o vento gelar seu rosto.

me dá sua mão pra eu sentí-la,para brincar entre seus dedos,minha brincadeira preferida nas horas calmas.para eu vasculhar a pele e buscar os sentidos.

me dá sua mão ali embaixo,no escuro.sob uma música,pode escolher.sob o sol.quando todas as luzes apagarem e a música for só nossa.quando todos forem embora e o espaço só nosso.

me dá sua mão quando você me olha,querendo eternizar aquele segundo.

me dá sua mão para eu poder dar uma risada calada e respirar profundamente.

me dá sua mão no dia em que quiser morrer.me dá sua mão quando quiser me contar um segredo,quando tudo parecer completo,ainda assim,me dá sua mão.

me dá sua mão para eu não me perguntar mais nada.para a gente não pensar no próximo dia,para morrermos ali.

me dá sua mão para eu descobrir por onde ela já passou,por onde ela quer passar.para eu lembrar que um dia,eu não a conhecia.

me dá sua mão, para,cada vez que eu possuí-la,eu me encantar com uma nova descoberta.
me dá sua mão para eu reconhecê-la na sua escrita.

e quando tudo terminar,quanto a vida tiver fim,me dá sua mão,para eu respirar aliviada,para reconhecer,para saber que por ali eu passei,que você me deu sua mão.

pode morar.*

estou no trem.a caminho de birmingham.escrever na estrada.é assim que me sinto.como estas cidades em volta de londres.a passagem.o trilho que corta aquilo que é conhecido para nos trazer o novo.um corte no meio do peito e você se enxerga,um corte dolorido e o sangue exibe.
um dia desses acordei com este corte,sem saber,tinha sido vasculhada,explorada,fiquei aflita.ao olhar para meus órgãoe spulsando percebi que sou aquilo que fui um dia.a mesma aflição do mês anterior,o mesmo choro dos sete anos e as mãos presas por correntes resistentes,o não saber da menina de quinze anos,o amor morando em mim.
para cada passagem uma nova cidade.fui fechando as feridas decorrentes do corte brusco e profundo e lembrando o quanto me faz falta a sua paz.o quanto eu me sinto bem com suas mãos livres pelo mundo e seus passos lentos.
o rasgo da carne
as palavras que rasgam a mente
o olhar sobre o esperado
a dor do vermelho sobre seu corpo
seu corpo morto
um cadáver.ao sol
sem pernas,sem olhos.é só carne
é podre.

Panic on the streets of london
Panic on the streets of birmingham
I wonder to myself
Could life ever be sane again?

Sábado, Junho 09, 2007

Foto.*


eu falo assim mesmo,com meu sorriso estampado no rosto,com minha língua desenrolada e com a voz alta.eu falo assim mesmo.e falo.e me ouvem.eu falo quando não escrevo,eu falo para me sentirem,eu falo para me sentir e descobrir,ou tentar.eu falo porque acho que o tempo é pouco,porque os sentimentos são únicos,porque o momento acaba, porque dormimos.eu falo porque não gosto de suar,pendurar minhas roupas naquele varal velho e nunca secar.eu falo porque gosto do sol,falo porque me amo.falo para entrarem em mim,para buscarem minha respiração a cada intervalo de cada letra pronunciada.eu falo,e sou feliz.falo para ser limpa,para ser transparente.eu falo para não levar as palavras comigo.eu falo para não ocorrer enganos.eu falo para o vento.eu falo para você.eu falo para não ser um monólogo em minhas veias entupidas de calor e fogo.eu falo porque é preciso.para dividir.para olhar no olho.eu falo para não ser muda.eu falo para poder me ouvir.eu falo para morrer.sem ser muda,morrerei.

Quinta-feira, Junho 07, 2007

Corrói*

sim,acabo de exprimir minha raiva sobre aquela mesa.sem olhos nos olhos.
me toca como uma carne suburbana vendida em um açougue qualquer naquela esquina.com vontade de vê-la sumir,saindo rapidamente entre seus orgãos,e percorrendo o caminho mais primitivo de todos.prefiro estar com você,sem saber quem é você.
me toca e minha felicidade explode dentro do nosso metro quadrado.como se antes nunca houvesse experimentado a sensação de ver teus olhos crus e pálidos,como se não soubesse sua língua e não reconhecesse sua voz rouca,como se não soubesse de todos seus defeitos sob sua pele,como se pudesse ainda me surpreender.mas ainda assim prefiro estar com você.mesmo não reconhecendo o conhecido,prefiro.
não sei de que forma me experimenta,fingo não saber e me penduro na vitrine,como algo esperando e esperando.implorando por uma boa compra e uma boa negociação.atiro todos meus panos na minha cara e sigo,prefiro o caminho que não enxergo,por isso prefiro você.
quero ter sentido nas palavras mas os sentidos escorrem entre minhas pernas e seguem para a sua.e se juntam.sem sentido.comum.sem gosto.sem.sinto o que pode ser construído.o que pode ser conhecido,dentro deste corpo que não pertence,que não existe.
prefiro estar com você,mas para isto,descubra onde estou.