Quanto tempo você consegue ficar debaixo d’ água?
Desde criança brincamos disto, até ficarmos roxinhos, achamos graça e tiramos sarro daquele que fica menos tempo. Lembro de sempre conseguir mais, sempre nadei e sempre tive fôlego, depois comecei a fumar, beber, dormir tarde, trabalhar, parar de nadar e suas forças vão se acabando, e o que resta é tentar de novo, pronto, você viu que não é mais o mesmo.
Sua mãe lhe trata como antes, seu pai a vê como uma menina, e você aceita, para o bem deles, para a história deles ter continuidade você aceita e se submete a comportamentos antes não vividos, só para agrada-los, por amor.
Eles não te conhecem, às vezes acho que pais nunca conhecerão os filhos, não é a função deles, penso que às vezes é uma relação ímpar, e só quem é filho sabe, só quem é pai sabe, só quem é mãe sabe.
Éramos tão grandes, tão importantes que o mundo acabava ali.
Lembro que aprendi a ter a poesia na minha vida, a aprender a ler, a apreciar belas palavras, as românticas palavras que os mais belos românticos diziam, e acreditava nas linhas intercaladas, que a cada separação existia um suspiro, uma respiração se preparando para uma nova estrofe, uma nova absorção do mundo em volta.Nossa, como eram belas aquelas palavras.Sonhava com os escritores sentados em suas escrivaninhas, pequenas, de madeira escura, num quarto quase sem luz, com um cigarro ao lado e a fumaça confundindo com a luz entrando pela janela.
Ninguém batia na porta, ninguém incomodava, na verdade não sei se teria alguém para incomodá-los, eles já eram suficientes para traduzir a palavra incomodo.Nunca pensei no que eles pensavam, daí criei os meus pensamentos, não tentando ser igual, mas eu tinha uma escrivaninha escura também, e ali eu ficava.
Quando a chuva caia era melhor ainda, os pingos batiam no vidro da janela e traziam inspirações.
A chuva é melancólica, inspira o momento solitário de qualquer ser sensível, seu barulho nem incomoda, ele é resultado dos obstáculos criados pelo ser humano para a sobrevivência e para sua vivência, umas boas, outras ruins, mas vivências.
O melhor é entender a diferença da chuva batendo na sua janela e batendo na grama de um campo isolado.
Desde moleque aprecio a água.
Eu corria, pulava de frente, lado, cambalhotas e a famosa bomba pra molhar as meninas...Mas, eu gostava mesmo de ficar embaixo d'água.Um silêncio onde eu podia fazer o que quisesse com meus movimentos. Liberdade total e incondicional. Sempre imaginei que estava voando no infinito...Então, lembrava de respirar na superfície e desligava-me do meu perfeito mundo lúdico e solitário. Completo.Respirava e voltava; depois, saía com minha pele enrugada e desejando liberdade.
Cresci e ainda brinco na água.
Cresci e construi um aquário; o meu aquário.
O meu aquário tem uma mesa clara, um pc, um blog, uma xícara de café e de vez em quando um gato carente pedindo colo ao dono.
As vezes, uma chuva na parede traz paz, tranquilidade e inspiração. As vezes, melancolia. As vezes, obriga-me a sair e sentir as gotas da chuva na pele para lembrar que estou vivo. Afinal, tenho um aquário, mas, não sou um peixe.
Dentro do aquário, eu escrevo.
Fora dele, eu vivo.
Sem os dois juntos, não sou ninguém.
Eu apenas sobreviveria.
Agora, tenho mundo real e o simbólico.
Quinta-feira, Maio 11, 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário